quinta-feira, 27 de março de 2008

Mãos mudas

Mãos mudas

As mãos, mudas.
Delas não saem nada.
Calaram-se de repente.
Não escrevem como antes.
Não escrevem...
O pensamento manda,
mas elas não obedecem.
Se recusam a empunhar a caneta,
a dedilhar o teclado.
Nem sequer uma palavra
elas riscam no papel.
Desiludiram-se decerto.
Perceberam que seu esforço
sempre foi em vão.
Nenhum par de olhos
aprecia seu trabalho.
Nenhum par de ouvidos
que escutar seus textos.
Nenhuma boca
recita seus versos.
Nenhuma mente
transformou-se com seus escritos.
Para que escrever,
se as mãos escrevem
e ninguém lê?
Abandonaram a escrita,
nem o papel as quer ouvir mais.
Pois elas falam pelas letras
que desenham.
Falavam, aliás.
Hoje, silenciosas, as mãos
se dedicam a outro ofício:
enxugar as lágrimas do escritor,
que chora por não mais conseguir
escrever...

14/03/06

2 comentários:

­­Misael Roberto disse...

Tocante!, muitas vezes já me senti
assim.

Mari disse...

Quando o poeta não empunha mais a caneta, não transforma em sublime sua dor.

Que peso!

Ótimas redescobertas no fundo do baú hein!! rsrs to adorando!!